do Espetáculo

Terça-feira, Junho 02, 2009

e.2

ao lado
o lago

__________- lago ao lado__________
_____- logo ao seu lado. logo ao nado
___________- nado ao seu lado_____
________- não não nado___________
______- não ao meu lado__________
_____- sou eu ao lado_____________
________- não vou ao lago_________
__________- sou eu o_____________
____________lago________________

e
o lago
ao
lado

Segunda-feira, Junho 01, 2009

e.1





Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

uma pena

tô aqui há
tanto
tempo

tentando








te escrever esse poema


.

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009




Quarta-feira, Julho 16, 2008

O bagaço feliz


A solidão bonita e amarela, já a ausência é uma merda.


That's what I call saudade, my friend.



.

Segunda-feira, Junho 02, 2008

Plágio Descarado

- É que eu te achei meio maluco e lembrei que já tenho muitos amigos pra administrar.

- Eu ia mesmo falar sobre amigos.

- Rapaz, a gente se conheceu na saída de um cinema, eu esperando a minha namorada retocar; não, retocar, não, ela não retoca a maquiagem quando vai ao banheiro, ela recoloca, ela sai uma arara amazônica, mas, eu estou lhe dizendo, eu fumava um cigarro pra só esperar que ela voltasse do banheiro! De repente me sopra até a orelha um vendaval de saliva retórica, uma mamata fraca, um papíssimo furado e ainda por cima chato, do tipo do qual eu não tive o menor saco nem pra não esquecer, olha só essa frase!

- Eu só queria...

- Eu só queria é o caralho. Eu é que só queria beber um vinhozinho de ruim pra razoável, comericar umas porçõezinhas charmosas e voltar pra casa, trepar de novo, mais nada! Você olha só o tanto de palavrão pra que eu tô tendo que apelar, olha o meu tom de voz, você olha só o meu nervosismo! Você, por favor, você pára de me atazanar.

- Falando em você, viu o último do Kiarostami?

- Pu, ta que me pariu. É disso que eu tô falando! Aaahg, você tá tentando me deixar maluco, olha pro meu cabelo, olha a minha mão destruindo o meu cabelo, qualquer um sabe melhor do que ninguém que eu nunca esbarro no meu cabelo, que o meu cabelo é um saco, dá trabalho, coça... É foda, você olha que tu tá me deixando maluco, arruma outra roça pras tuas batatas; planta, mas longe daqui!

- É disso que eu tô falando.

- Disso, o quê?

- Batatas. Se você reparar direitinho, o Bentes, aquele professor que escreveu um livrão sobre o Kiarostami, eu até tenho lá em casa, se você quiser dar uma olhada a gente pode marcar de trocar umas idéias sobre ele, fazer uma leitura, tentar um debate; nesse livro do Kiarostami, não do Kiarostami, não, sobre o Kiarostami, do Bentes, o tal professor, ele rima umas falas baratas sobre batatas.

- Eu desisto. Olha só a que nível eu cheguei. Olha. Olha a minha calça. Olha a... Eu me mijei. Me mijei depois dos quarenta, agora eu só paro quando parar de vez de mijar... Olha só a minha vida.

- Continua assim. Sem perceber, você está pegando o espírito. É isso aí. Mijar. Você já ouviu falar que batata sua?

- Que batata minha?

- Que batata sua do verbo suor!

- Ar! Do verbo suar!

- Você vai tentar de novo tirar onda com a minha cara, mas dessa vez não vai rolar. Ar. Me escuta ao menos uma vez.

- Me promete que essa é ao menos a última.

- O que eu estou lhe dizendo é que batata sua menos do que mija.

- Não.

- Não o quê?

- O Kiarostami não fala sobre batata mijando nem aqui nem na puta que pariu, de novo. Olha só o espasmo na minha perna, olha só o espasmo!

- É esse o problema do ser humano, a sua raça, vocês são céticos. Nós não somos.

- Outro!

- Que vocês são

- Espasmo.

- são muito emparedados, estão mais pra lesma do que pra pérola.

- Meu rapaz, eu só queria dizer que lhe agradeço pela sua simpatia, por você ter me achado um cara legal, por ter achado que eu sou obrigado a ouv, não, respira; eu te agradeço por tudo, meu camarada, mas eu realmente não vou mais poder lhe dar atenção. Na vida. Atenção na vida, eu tô falando. Não leva a mal. O problema tá em m, digo, então é isso, fica-se tudo assim, boa sorte e até mais ver.

-

- Até mais ver, não, até até, até porque a gente não vai mais se ver.

-

- Eu espero que você tenha entendido.

- A batata mija...

- Basta.

- A batava mijav...

- Fim, rapaz, fi-nhê, fim, acabou.

- AbatatamijavalágrimasnofilmedoKiaros...

- Não quero mais ouvir. Acabou.









- Ei! Eu te acompanho até em casa!

Sábado, Maio 31, 2008

.
exercício de empobrecimento da rima - parte XXX.


estudo obsceno da poesia e o teatro - parte IV.

05.2008 - R.


* * *



"... e quando eu te olho no espelho, eu fico vermelho. Um beijo".

narrador

Foi forte aquela carta, foi coisa pesada. A menina ficou estatelada, no banheiro, pelada, e só voltou à parada, só depois de umouduas talagadas numa velha cachaça já escassa, coitada, velhaça.


atriz seminua perambulando por um quarto, mãos na cabeça e as costas semi-cordundas, um papel na mão direita e, na esquerda, um gargalo.


narrador

Desgrudou do espelho o papel e pensou muito sério em bordel, nem pegou o chapéu - voz masculina em off, bem atormentada, ressequida, impostada, meio tremida, embaçada- "... e, meu bem, você sabe que eu nem sei bem quem, sei quem vem, só que isso não dá pra provar, porque aqui eu só tenho o pensar e, apesar de te amar, não vou nem suportar essa sina tão pobre, tão esnobe e verbal e moral, sexo anal, e o cigarro aqui aceso ao meu lado não vai me acalmar..." - narrador - porque se lembrou dessa frase com desbunde, sujou a saia.



narrador


Tomas Carlos estava pinel, só podia. Uma carta assim dessa valia, tamanha esquizofrenia, ele não fazia sentido, estava destrambelhado, perdido, acabado, e esse maldito inseto insensato ainda a deixou sem sapato no meio de um quarto tão desarrumado, que, coitado, se chovesse um bocado ficava enlameado, encharcado: os móveis começavam a se quebrar.


atriz sentada no meio da sala, saia branca rodada, véu e grinalda, olhando para cima e ouvindo o teto rachar - sonoplastia.


luz de trovão e barulho de raio pela janela - atenção, sonoplastia, atenção.


narrador

O primeiro a rachar foi um vaso italiano, feito em vidro de Murano, com um formato humano e que, se não me engano, lhe foi dado por Tomas Carlos - não era coisa de qualquer beltrano, vinha de gato escaldado. E agora, quem diria! Tomas estava abobado, lhe escrevera uma carta demasiado defasada, sem nem pé nem cabeça, sem nada - ou de novo: pelada.


nua, atriz deitada numa rede, pernas pendendo cada uma para o seu lado. não encostam no chão - em suas mãos, lê-se uma carta.


luz caprichada, afinada.


voz masculina em off, timbre de peito arfante

"... O que aconteceu ontem não foi digno de nota, nenhuma, além, é claro, além do obtuário, daquele canto escuro do jornal, onde o papel é semipreto e ele mancha, ele é cheio de câncer, é cheio de tubos, cheio de balas, de balas, oposto oeste da sua Coluna Sozzial.
Eu preciso de tempo! - música compassada e grave, soturna, até que surge uma flauta, aguda, afinada, restauradora - Me espanta... Ao menos tenta. Se desencanta, vê se se faz menos bela, perde o brilho, perde esse seu sorisso, e o canto do seu olho, e as ruguinhas, as ruguinhas do canto desse seu olho, o sorriso! E esse gosto de banho, o teu corpo castanho, cor de biquini, espontâneo, tão curvilíneo e mundano, cheiro de delícia, tato à le bacanal, minha menina linda, você não tem nome, você é homme".


a flauta some em um fade orgânico, sopro mais leve.

a atriz está encurralada entre móveis e a escada, com a maquiagem pesada inteira borrada.

a chuva some e a sala se faz clara. a atriz se levanta, o pescoço esticado, ela respira, mas fecha o olho, ela se retira e a cortina,


a cortina é fechada.


Trinta e três vivas à mais pura chanchada!

...

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Tem poesia aqui, Marli

Fechou. Eu aproveitei pra descer e atravessar a rua bem rápido, antes que o outro lado do cruzamento começasse a chover aqueles carros todos. A avenida era só mais uma dessas grandes, em cidades grandes, com trânsito o dia inteiro e movimento razoável tarde da noite. Comigo, no ponto de ônibus, dois caras distraídos e um casal mais afastado, à doutores de alegria, se amassando numa árvore dessas normais em avenidas grandes, em cidades grandes.


O mais gordo dos dois caras apanhou logo um ônibus. Em frente ao tal ponto estacionou em seguida um carro largo, pisca-alerta cumprindo o seu papel, e eis que dele me sai um cara de macacão prateado com uma logomarca esquisita na nuca, duas palavras quaisquer em inglês, e abre à chave o porta-malas sem a menor pressa. Dois baldes, dois panos e aquela vassoura caduca e careca. Rodo. Até aí eu ainda não prestava atenção e continuava a olhar puto pro relógio da esquina - mais um desses sádicos, que insistem por quarenta segundos na merda da temperatura antes de só confirmarem que você está de fato atrasado e que a mesma desculpa mulambenta, Monique, mais uma vez, não vai colar. Respirei fundo.


E dei aquela olhada em volta. O ponto de ônibus era daqueles com um vidro enorme, estrutura grande de ferro escuro e cartazes de peças de quinta, pregados em vitrines iluminadas por lâmpadas de banheiro. Típico ponto de ônibus grande de uma cidade grande, logo em frente a um restaurante. O vidro. O vidro já estava completamente encharcado e cheio de espuma branca, aumentando além da conta aquele friozinho que bate com vento gelado na rua, depois da meia noite. Eu já quase me arrependia por não prestar atenção no sabe lá como aquele cara molhou e ensaboou aquela vidralha toda, mas essa hora desistiu do silêncio. Foi quando começou o concerto.


Com c.


O rodo fazia e repetia um mesmo caminho, sob a mesmíssima velocidade, e não deixava nenhum senão nem seco, nem sujo. O outro cara, o de preto, que também devia estar tentando esperar um ônibus, acompanhava atento os lentos movimentos verticais, mexendo de vez em quando a cabeça, enquanto eu me concentrava quase tenso nas linhas tortas que ele fazia, paralelas ao chão, mais uma vez. Volta e meia acontecia do cara de preto olhar em volta, meio a segurar um sorriso criançola, criando um palíndromo e concluindo gerúndio que eu provavelmente estaria pensando, e literalmente, no seguinte óvbio: “Caramba, eu nunca parei nem pra considerar que existisse um cara especialmente dedicado à limpeza de pontos de ônibus". Mesmo em cidades grandes.


E eu pensava exatamente no mesmo de volta, aí nasceu o cacófato corno do palíndromo fado. Podia-se chamar sem culpa aquele artista de elegante, doutor em aula de elegância, também e justamente pelo fato d’ele saber que era inegavelmente assistido e, assim mesmo, não se distrair em nenhum momento e cumprir seu papel muito além da simples faxina. Ele era nem maestro, sabia também e não pouco de coreografia. Nós dois, envergonhados, meio cansados de olhar para os lados, já quase parávamos de assistir e procurávamos a merda do relógio para disfarçar, quando enfim chega aquela mulher.

Tinha poesia ali, Marli. Antes que eu explique:

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

......................................... . .... . .. ... .. .. .... . . . . . . . . . . . . . Rio, 1º de janeiro de 2009



Clóvis, meu amor,


Passando os olhos assim, de leve, ao léu, como já diria a tua avó, ou a minha, ou a da vaca da Claudia, sei lá, eu concluo que 2008, se melhor, desandava e ficava que nem essa rabanada da tia, fria, magra, e que de tão caída, e murcha, e amarela, tá me lembrando você, o primo, e o teu rabo, desculpa.

Obrigado pelo carnaval incensado na Rua Alice e pelos elogios soprados na minha formatura; te agradeço também pelo Prestígio gostoso da última Páscoa e pela acolhida nas férias de julho, depois daquela briga pavorenta com o Julio, graças à piranha da Claudia, que mordeu e picotou todas as minhas roupas depois que ela mesma decidiu me peitar, e tacou carteira e tudo mais no aquário sujismundo da sala.

Aproveito e peço desculpas pela discussão pré-eleições, mas eu continuo insistindo pra você enfiar essa porra do Aécio no cu, ir pro Ratinho, pedir um DNA, ficar todo cagado de rico e me pagar aquela aposta que você perdeu, quando o Curingão caiu pra terceira junto com o teu Madureira.

Setembro poderia ter sido melhor, eu concordo contigo, mas que há de se fazer se a Claudia preferiu tomar aquele ônibus torto e me deixar pra sempre?

Hoje eu tô aqui, mais rijo que a rabanada, te vendo duro nesse caixotão de madeira, de lei, deitado de rei, mas fora da lei, eu sei, eu sei, eu me precipitei, mas que a porra da arma e do tiro que eu dei, por Deus, não te façam esquecer que se eu te fiz de refém foi também, mas não só, por culpa da monstra da Claudia, que voltou com o tarado do primo e aquele par de gêmeos bobos no umbigo.

Claudinha tá aqui, do meu lado, e eu acho que ela até te mandaria um beijo, não tivesse com essa mordaça amarela, feita com as pregas daquela tua calça meio persa, moderna, ou vice-versa, sei não. Ainda não decidi o que eu faço com ela, mas te conto logo mais no outro mundo, quando ela sim decidir enfim apertar esse gatilho e confirmar tudo o que eu desconfi/

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Catete, cacete

Acordou atônito, ficou logo lacônico e mandou um hidropônico em formato cônico pra ver se espantava aquela muléstia bastarda. A noite de ontem e a manhã de hoje – que nesses momentos é então tão mais ontem – fizeram questão de aparecer já na cara amassada daquele bronco botocudo do espelho, amarrotado e com olhos rasgados, semi-fechados.

Tu-tu, tu-tu no relógio de cabeceira e era hora de tentar entender o porquê do peso que se sente em ficar blá em casa, em só não fazer nada, enquanto o Rio, la playa, esbanja suor, bate-papo e mais praia, com o mesmo efeito que um decote bem feito escondendo, cabreiro, um bom peito perfeito. Y el ritmo, el flujo a inflamarlos, es culpa del ritmo...! Ele acordou e as horas já estavam no segundo quarto do segundo relógio de parede à direita, madeira e cristal, com uns badulaques barrocos, gosto duvidoso, mas sem não ser charmoso. A Gruta do 201, face sul bem safado, era mais um convite à culpa, extenso em RSVP à balbúrdia e à preguiça.

Mais doze voltas completas e seria hora de dormir. Melhor então aproveitar e dar uma deitada.

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

Monsieur Enigma











Nasceu num berço clássico bem classe média, era um bom médio, tinha gostos e aptidões médias, era médio inteligente, médio belo. Era médio nas relações, tinha um caráter médio, morava num prédio médio, de um bairro médio e forçava um trabalho bem médio.

Não era à toa que achava a vida às vezes um tédio.

Quinta-feira, Novembro 01, 2007

C#m

Foi na Fonte da Saudade que eu te conheci e onde o epitáfio vestiu-se prefácio, próximo a Epitácio.

E hoje eu vejo o teu braço,
sem o teu abraço,
e o teu rastro,
tão cego e em vão casto,
casto,
boi no pasto,
ai, que asco e não fraco.
E o que seria
saiu só
desafinado,
som raso, tom reles,
se queres então pedes,
a mim pede que eu faço,
que nada impede
À minha pele,
o seu cabaço.

Ai que saco...

Domingo, Outubro 14, 2007

A Faísca do Inexplicável

- Esse meu pedantismo me faz achar que, pelo jeito, na noite o quem só prestou fui eu, posto que ao menos o meu nariz aparece em todas essas fotos, ao contrário de todos. O seu, o pedantimo, mas também o nariz, mais mal humorado, arrebitadinho pra Lua, vai concluir que eu sou um babaca.

- Exato.

- Porque é essa a nossa diferença. Enquanto eu me divirto, você se emputece. Eu rio da sobremesa gelada, você faz de tudo pra engolir, conseguir. E vai tentar mandar o já clássico "Eu não estou puta!", porque o seu tipinho é previsível também, mas nunca basta, não é suficiente pra mim, mais a você. O nosso filho seria um zen-budista em Nova Iorque. Ou um novaiorquino no Tibet. Uma santa.

- Nessa hora eu faço a Cama de Casal, parto pro abraço. Mas, antes, o meu tipinho não me permite pedir desculpas, não e nem cogita, e essa parte eu sei que você adora. Me ajuda a abrir esse botão, tá aqui preso. Ó.

- Ò. É nessa hora em que os cientistas e os seus companheiros chatos percebem que a vida é pior ainda, é uma merda. Que conhecer todos aqueles pontinhos correndo vesgos no seu sangue, que o volume deles liberado e dissolvido, explodindo e liberando alguma ina qualquer, adianta só e tanto quanto o cigarro, que se você parar pra pensar não completa nenhum vazio. É um placebo tragável. É claro que o cara vai querer dar um banho no ganso e ceder. Eu cedi. É a faísca do inexplicável, eu vou publicar isso, e vou te comer agora, agorinha.

- Quando?

- Daqui a pouco, agüenta as pontas, pede uma cerveja aí.

Domingo, Agosto 19, 2007

Sem mérito, imperfeito

Senso de atriz, olhos vís, nada em vão, chorava lágrimas por si contratadas onde, quando e se queria, se calhasse, de bobeira. O sentimento é relativo, sua materialização é um processo longo, trás ruído em seu caminho, distorce, torce, inverte até, esse é o seu argumento, sua cura e o teu lamento. Dona de atuação febril, cria no que criava, convencia, e se não sabia o que sentia, o que sentisse e o que sentir, se levava, fluía-se. Fodia-se então fodam-se, tudo era a si questão só de momento.

Na enchente, minha gente, vêm os outros. Arrastava o que e quem fosse, era a mestra dos bonecos, "Mexam-se, ao meu comando. Durmam. Fumem. Agora dancem!". E os fantoches rebolavam, sorriam sem mexer duras suas bocas ocas de madeira, se enganavam, engendrados, contrafalavam, desdiziam. Até o dia em que quebraram. Se.

Seus comandos se perdiam, vento ecoando em plano alto, cor sem cor na dor de Brasilia. Era já dia e acordou sozinha, eram ela e a dorzinha, aguda, certeira, dor de culpa, odor de chuva, capa de culpa sujimunda de chuva. O empurra-pança, jogo jocoso entre costume e barriga, fluiu sem dor até esse dia, e foi um balde d'água vazia quando se viu sem companhia.

Tanto fazia?
Engolia.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

Não é fome nem sede, é vontade de cigarro. Eu não quero respirar, me esticar, nem ar, é vontade de cigarro. É sorriso, birra ou saco, é vontade de cigarro. Aceso o cigarro.

Não é fome nem sede, é vontade de vontade. Eu não quero acordar, levantar, nem pensar!, é vontade de vontade. É preguiça, eu tô fraco, é vontade de vontade. Acesa a vontade.

Não é vontade nem fome, é sede de cigarro. Eu não quero ar, vontade, nem cigarro, é respirar e levantar. É cigarro, birra ou sorriso, a vontade vem do saco. É vontade de sede, não é fome sem vontade. É vontade de cigarro, acenda o carro, vou comprar.

Segunda-feira, Julho 02, 2007

O Bordel do Poeta

Tava com aquela cara de porta quando abriu o espelho e entrou na sala.
Parágrafo 2046, letra 402, fundos.

De cara, eram seis exclamações magrelas,
pulando putas e pretas num canto,
final do corredor.

Já sobre o palco, parco, porco e alto,
sinuosa e só de calcinha,
rebolava uma interrogação
e bem torta,
da esquerda à direita
e ao meio,
quase. Quase tocando o chão. Onde,
só,
dormia uma moedinha esquecida
por uma reticência incompleta.

Suas duas irmãs surrupolhavam redondas
Três Marias boladas pelo basculante,
Sujeitas oblíquas,
em pontos de inveja
barrigas brilhando.

Abriu seu reflexo e entrou no banheiro.
Olhou para a porta e as viu,
em cima dos olhos:
Duas vírgulas dispensáveis,
em forma de parêntese.

Fechou o contexto e as raspou,
tornou-as colchetes.

Torneira ligada,
água quase molhada,
barulho de verbo,
um redemoínho formou.

Os travessõezinhos de pêlos
à pia escorreram,
e correram,
chegaram,
arfaram,
morreram,
entraram no ponto
e ponto!

Saíram pelo cano.

Quarta-feira, Maio 16, 2007

Bocejo outonal

Os duendes, que faziam material de costura, papéis e o mata-borrão de Fernanda zanzarem como extraterrestres pela velha casa, são nas horas vagas os mestres do rock’n roll. A tese aqui é didática e simples, ou seja, um calafrio simpático para aqueles que gostam das ciências exatas: Roqueiro bom é roqueiro morto.


Só o pronunciar dessa frase fazia Cintra remexer as perninhas finas, chamadas já de flamingos em sua infância, do alto da cadeira velha de vime ruim. Pensava nos ícones unânimes das rodinhas de vinho tinto, nos nomezinhos certos do caderno bom do jornal, e dizia, com voz de pêra – “Não. Os roqueiros bons ainda estão vivos!”.


A resposta foi firme, fria e vaga, bem como uma vaca. Veio de um menino (como já o diria o avô Benvindo), que de sentado no fundo da sala tornou-se um bom linha de frente, dizendo com voz de adolescente:

- David Bowie, o tosco do Roger Watters, Caetano Veloso e a Hebe da Rita Lee. Bando de pentelhos no ralo, sovacos no ônibus. Se já foram algo, não são. Vãos velhos caretas de samba-canção, Domingão do Faustão (inclusive a Rita – n.a.).



E se em ônibus trânsito gera baderna, em bar frase vira guerra. Logo se levantou mais um, coroa careta bêbado, cara de cafeta enfezado no sábado (coisas de almoço em família):

- Se bobear ele tá é certo. É bom se já tá morto. Roqueiro envelhece e coloca botox, rugas aparecem e eles mudam a voz, o cabelo é do tom de casaco de avó. Os que preservam a loucura viram maracujás sacaneados, os que insistem cantando têm cara de advogados. A morte é o atestado.


Cintra hesitou. Chamou a xará, abraçou e bebeu; refletiu. Argumento quebrado, pensou na desculpa, o contorno forçado, e gritou: “Ah”...

... Foi interrompida por gnomo anil.


(continua)

Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

Trocou ei por o e chorou a noite toda

O título veio tão todo-todo, que eu achei que tirava finalmente o pé da lama. Essa coisa de fabilizar é assim mesmo: volta e meia a sorte te foge que não há quem vorte. Nem foi diferente.

E aí a gente acaba apelando pra uns recursos, não dá pé ficar muito tempo por fora – afino: viva a literatura, afinal -. ¬? . ^ . Pára-se pra pensar: que que te dava o guizun? "Tu vai se lembrar de lembrar, vai lembrar, vai por mim!"

Veio.

É o caso daquela merda que unza-time again te força a pálpebra e dá câimbrolho. Dá no sempre no que dá. Já fez quase um mês de azul sem os azuis.


Troquei e por a, a chorei a noite inteira.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Fá-bula S.

boa noite,

estou deveras (serei claro e direto): sabes bem.
o ponto é que escrevi uma Letra.

se agora, que eu tô comotô, ela já tá com aquela cara de absurdo; amanhã, sóbrio, o nome será Incompreensível.
a coisa é que, nesse estado, eu acho que consigo iluminar os conteúdos

s.m. /s.f. / subst. próprio .

antes de qualquer coisa; metricamente ela tá direitinha.
dito disso - hora de esmiuçar a senhora Rima dos Menudos:

.

- quatro primeiros versos metalinguísticos. o passo-a-passo para se fazer-se letra em música.
- dois próximos: anunciam a chegada da historinha didática inventada.

(intervalo. instrumentos)

- quatro-primeiros-segundos já entregam a estrutura padrón do texto cabrón: verbos, citação, clímax e, por fim, personificação.
- quatro seguintes misturam tempo presente e tempo psicológico. no quinto o Sujeito assina.

- quatro últimos - metalinguagem se explica no refrão: a farsa lírica é a metonímia do determinismo.

.

você está preparado. leia com a bula:


Fábula
lápis, riso e cara maquiada, assim se faz

o circo da escrita é outra farsa
quer saber se dói cospir em letras, tenta ouvir
a história do pequeno Jaboti.

atenção: o ré menor é a pista
sente-se e comece a anotar!

.: instrumentos:.

não se esconde nem olha pra trás, pra perceber
deixou o amor embaixo da escada.
porque a cor de cruz da madrugada é mais pra lá
porque a sua luz é cor de lágrima

fogão frio acende, esquenta e morre.
e a palavra esquece de falar.
a vaidade começa a pensar
,segura, toma, aceita logo o chá!
menina.

-
ah, e o verbo sai
kilos a mais
é Dia dos Pais
é aniversário.
-


note só que coisa calamitosa.
inefável, inefável...

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Play something familiar, Billy Liar

Se com cada se mostra um tanto e sortudo é o que já viu o todo, pra si era pau de gorducho - mistério escondido em barriga. O tanto que era com cada lhe era tão nada, mas tão nada-nada, que a si sempre se perguntava: "Ei, porra. Sou Sartre à Sganzerla. Que sou? Nem Hamlet, nem merda".

O problemão da falta de tenência veio quando, um dia, o tanto que era com cada vazou entre cada um dos cadas, o que fez ninguém entender nada e cobrar-lhe mínima coerência. "Ooooras", queria pensar, "Se linha eu perco até Tilibra, se falta mesmo aqui na escrita, bolas, querê-lo além pose é exagero. Tortura, não mais é que vírgula*".

E se de novo confundia, vê só. O culto ao culto bonitinho ainda era de gosto - lia, ouvia e escrevia, tudo isso mais menos que mais, aliás. Faltava, e isso ele achava, saber o pra quem e o pra quê, além do por ser ou querer - dos quais desistira há um tempo. De novo, coitado, nessa ainda mais se fundia porque, se burro ou no charminho à quinta, era ambos e em nenhum sucedia.

Fazer-se o burrón era bom, nem negava. De noite era só dos magrelos; adorava e dançava o seu charme indiscreto porque só sorrir a libido forçada forçava e bastava: gostavam, fingiam-lhe apreço. Já o prêmio da tal falsariagem só ia aquém do carinho no ego, já que ele tinha que ser limitado, quisesse embriago, punheta ou sucesso. Assim se nutria o embargo.

O mito imitado em Lua era vago - logo ele seria careca e sabia. Sem pêlo acabava a estima, que nada mais era além ode ao status. E lá do outro lado do fio esticado, a usura era já quase adulta: cobravam-lhe os juros do afastamento e o desprezo ao murmúrio era quase consenso. O preço da contradição então era o não.

Personalidade era a roupa da festa, vestida de acordo com o traje pedido e, oh!, sabia que estava perdido. Esqueceu paciência nos copos e corpos: um dia ele desistiria; em fumaça se fantasiaria. Sorria.

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

These impressions of Earth

Todos juntos cantando bem quietinhos, vamos lá.


É na e no Sol de manhãzinha,
também nos de de tardezinha.
É quando toca a musiquinha
e aqui na vista da baía.
É no papel feito em bolinha,
ou no em volta à companhia.
É no livrinho comunista
ou no retrato do artista.
E no pedido egoísta
e na explicação sofista.
A pena pena a escrita
e faz de novo a vez da vida.
Até lá, que a gente insista.


Um dia vira conversa.

Quinta-feira, Julho 27, 2006

- quatrilha menor, Maestro *

Abelardo rouba sempre os fósforos da cozinha pra acender seus cigarros.
antônia pendura calcinhas sujas no box do banheiro.

Dona martha um dia se irritou muito com as calcinhas e decidiu queimá-las. Catou logo umas três, virou pra cozinha e cadê a porra do fósforo?

Abelardo bateu e entrou enquanto seu cláudio e lia tentavam transar já pela terceira vez:

- Tchau-tchau, vou pro colégio.

Dona martha, que procurava Abelardo e seus fósforos, entrou no quarto e deu com o filho pelado, com aquela maçã na boca.

Desmaiou.

antônia então chegou do colégio, trazendo o namorado e o casal de sogros.

lia irritou-se vendo toda aquela movimentação, levantou-se da cama, nua, nuínha, e pulou pela janela.




Abelardo nunca gostou mesmo daquelas calcinhas esbarrando no xampu. Acendeu seu cigarrinho, virou as costas e seguiu tranqüilo pra escola.






* Maiúsculas e Minúsculas. Da série "Crimes Pequenos"

Sábado, Junho 17, 2006

Por aí


Biazinha costumava falar com a boca e com a cara inteira. Às vezes seu corpo todo também resolvia falar. Era caso de querer ou não, coisa de vontade.

(pianinho)

O que houve ontem não foi legal pra saúde, legal menos pra reputação da pequena Bia. É que Zinha e as amigas montaram a banda de rock há uns três meses, e ontem rolou(,) finalmente(¬) o debú. Casa lotada, mundo todo presente, ou bebendo; Biazinha, owyeah, perdeu sua linha.

(rock, rock, rock)

Beijinho à francesa, cigarro vermelho e uiscão, um atrás do outro. Se lá era alguém, seu nome era Do Povo. I am the lizard king. I can do anything. Fez, fez, se estrepou. Subiu mais que torta, encarou a platéia e empacotou.

(mozart)

Tá morta, lá, cemitério, acabou. E tá, tá sim, tá mal falada que só, e é sim, de dar dó.
Acentos agudos são tiros. As vírgulas torturam.

Quarta-feira, Junho 07, 2006

Volta pra ficção, Ricardo.

Esse nosso jeito dia-a-dia de escrever é mesmo e só hilário. A paixonilte pela língua ( ) se mostra agora pela burocracia dela. Manifestar-se. é!

Se a prezamos ou é importante mostrar que, partamos então de sua função primeira, essa aê, passar. Passou? Deu pra entender caralho? Porra deu pra entender caralho? Vírgula e apóstrofe são, burocracia.

Não amandemos e invertamos a coisa à sacaneeur dos que fazem e não sabem. Nem o oposto do oposto, defender com a dentada a honra dos niilist(rok)es do computador. Só paremos de bobíce, Gulart.

(L) Vocês!








E terminou o discurso, aplaudido por um grupo de morsas.









- Olá! Gostei muito da sua arte! Sou gorda!

- Yeah! I'm the fucking fatty bitch, sucker.

- No colégio me chamavam de Júpiter. Era a saia.

- Eeeeei! Me ajudem! Vocês, me levantem!! FIZ um buraco.

Sábado, Maio 13, 2006

Nada que a falta de uma boa noite de insônia não resolvesse.

Acordou.
O primeiro momento e tudo oquêi, era uma manhã trivial.
Foi ao banheiro e se olhou.
Já disse, não era uma manhã trivial.

Molhou com força o rosto.
Febrão, febrão... Chuva filha da puta.
Lembrou que ontem foi o maior solão e que não arredou o pé de casa desde as quatro da tarde.
Febrão da gripe... Eu sei que é!

A cabeça ia bem também:
poucas pontadas bem espaçadas.
Gotinhas de homeopatia, pingando, Seis horas na cuca.
Sobre a, tim, dorzinha constante; pra lá cerejar.

Antíteses e paradoxos da pázinha e do baldinho.
Overjoyed and at peace da mirônga do kabuletê.
Pícaros Alados – A Nova Novela do SBT.
Fim da simetria, o braço vai e cá vem o pé.

Foi então pra cozinha, escolheu um pão e tomou café.
E era o fim da historinha, razão, razão, não sei que é.
Voltou para o espelho;

pasta,
sabão,
e o estranho até.

E Foi pra faculdade.

Depois pra Barra.

Depois pra Farra.

Doeu de novo.

Mais uma vez.

A última vez.

E uma vez se encheu.

De noite no Queens


Aaahh, nada como res-pirar bem fundo.
O máximo possível, o clássico fusível.
Faltou luz na Macedônia, aos maçons só acetona.

Mama, just killed a man, sais that faggy moustache.
Bigodes, Jack Fucking Twister.
Mão direita no vermelho.
Jorre, líquido maldito.
Estamos na banheira, eu, você e Matthew.
Apaga, apaga e tira a tampa.
Sim, beba Coca-Cola, sinta o verão.
Os quarenta e dois da cidade maravilhosa. Elkes e suas longas botas no Lido.
Ler pra quê?
Re-pito.
Mamamia, mamamia, mamamia letmego. Let me go to Alabama.
Sweeet home, Alabama
where the skies are so bluuue.
Azuis como os da loura.
Loura em parte,
parte a loura,
vem o olhinho.
Vai o olhinho.

E hoy jo catarsei.
Catar-sei, eu sei, eu sei. We pray.
For Ray. Charles.
Camila Parker Bowles, Elton John e aquela música chaaata.

Aaahh, nada como res-pirar bem fundo!
Canta, Freddy Krueger, eu dirijo o Mercury e peço um n°1 sem picles.
Até a Lapa e tomo um tapa.
'quela vez, tomei um soco e ficou roxo. Igual o do Collor.
Porque Colorida é amizade Boa.
Vê uma Antártica, Tião, já que não tem Itaipava.
Aliás, lá é bom.
Podíamos ir no carnaval.

Tum-tum, pá ti cum bun.
da.
ta.
ta.
Que bêbada safada!
Tá errada, sua sapa.
Passa!? Nunca gostei,

Panetone devia ser proibido.


- : - 65:59 - : -

A Bula (ou sobre o verbo postiçar)

no opróbrio próprio, eu prego a falácia. a-a gentalha, sou nem genitália.

já o riso tantálico pospõe o inefável, o estado imutável é o fortúnio a-logrado.

deveras fungível, sim sim, sou fungável; às porcas bazófias, às parcas prosápias...

eu sigo amovível à delonga arfada, clamo a talagada - à prosódia aprumada.

pois sinto o encargo do meu caiporismo e a qualquer aforismo, consinto e abdico.

encarcero o peito ao abafadiço, retenho os caniços, (s)ou, enfim, postiço.

.

Quando Cartola versa a Esperança Vaga

Olhou para os lados, certificando-se de que não havia ninguém mais no pátio. Deitou a mão no bolso e pegou sua carteira de cigarros. Não tinha a menor vontade de fumar; ainda o último filtro brilhava, fosco, noutro canto, próximo a uma pequena árvore.

Mesmo assim acendeu. “São assim os vícios”, pensou, “Faz-se menos do que se pode, mais do que dever-se-ia, é involuntário”. Acreditava que a vontade naturalmente torna-se menos forte do que o costume, o qual, após abertas as alas, assume sem garbo as rédeas, apenas devolvendo o couro à mentora inicial em casos de extrema urgência ou novidade; fumaria por costume, então. Assim explicava também a rotina ou a monotonia; agiriam elas como os vícios. Junto ao costume, por vezes, atuaria ainda um outro tipo de sentimento, uma espécie de incentivo paralelo à má vontade, mas este ele não conseguia, não por medo, sim por falta de vocabulário, empalavrar. De qualquer maneira, soprava a fumaça e nada observava à escuridão; nessa hora, a luz fraca do penúltimo havia já morrido. Pôs-se a se concentrar nos barulhos que o cercavam, e tentou, em vão, identificar uma música que, lá, bem ao fundo, indicava a existência de um bar ou coisa parecida.

Imediatamente pensou em beber algo, mas logo desistiu. Lembrou-se do recente arrebatamento e concluiu ter encontrado mais um meio para reforçá-lo. Nesses momentos não raros de anti-contemplação, costumava tentar pensar. Não duvide, precirritado leitor, de que houvesse muito a se pensar naquela cabecinha. Tudo muito vago, fugaz e solúvel, como o pó, mas havia. Seu problema maior esboçava ser a, própria e alheia, falta de dedicação aos conflitos e dúvidas que tentavam atormentá-lo, tivessem eles espaço. Alguém precisava, portanto, avisá-lo que os sorrisos amarelos, apesar de razoáveis escondedores, resultam em dentes azuis, irrefutavelmente. E que sua busca pela nova versão da Bela Morte, que alguém já disse "toda uma vida honrar", não trazer-lhe-ia necessariamente bons frutos, ao menos da maneira com que se desenhava, escrevia.

Novamente creditou ao costume sua falta de ação. Queria desvencilhar-se do marasmo chato recém instalado, mas seguia a vontade inerte, letárgica, privilegiando como sempre o garantido. As vozes altas e as longas gargalhadas, cada vez mais próximas, denunciavam que o tal bar havia fechado. Fechado. A alegria daqueles bêbados passou então bem perto, mas nosso herói fez questão de se esconder. “Deve entre eles haver algum conhecido que provavelmente me chamará para acompanha-los”, imaginou.

Deu então a última tragada, longa e pesada, quase queimando os dedos. Quando teve certeza de que novamente não mais havia alguém por perto, levantou-se, ajeitou as roupas de forma que não se percebesse onde estivera e preparou-se para sair. Antes, inconscientemente, deitou a mão no bolso e pegou sua carteira de cigarros.

Acendeu outro.

Em tópicos


- Utopia é um termo moderno, quando ela acaba, começa o hojemdia. Hojemdia chato e triste esse. Morto, frio e gordo também. Porque quando havia a utopia, havia o bom-óbvio, aquele do Groucho Estíffens, existia estímulo, sabe? Hoje, na minha opinião, o estímulo é o “Pedala Robinho”, estímulo ao lhufas e ao chongas. E bebe-se, e fuma-se, e ri-se, e existe-se nessa de nada. Falta de perspectiva é o problema. O conceito boçal de romantismo que rola por aí parece contradizer a idéia, mas não. Como se chamam mesmo, no singular, os rococós dos enfeites e adereços? Argh, paradoxo. Enfim, romantutopia é legal sim, motiva.

- Aí vem alguém celebrar a angústia, diz que ela estimula o homem a sair de si mesmo, a soprar a banalidade do cotidiano e alcançar a transcendência – de testo o termo –, abandonando enfim a antiga existência sûr le rien absolu. Contemporâneo safado esse Ráidig – perdoem o sotaque – que credita à angústia um papel que melhor cairia na, cuidado, boa fé. Boa fé é pejorativo. Perdão, então, não, Utopia. Força motriz. Anti-desânimo. Esse hoje tá desanimando? Não se deixe engolir. Mergulhe, vá ao fundo, mas não pratique apnéia. Pode acabar ficando lá embaixo. ... . Droga! Isso é trânsito, fluxo, instabilidade? Merda de paradoxo.

- Por fim, seguiremos avaliando os graus de animosidade superfólica coercitante do ID dos cães pastores. Falamos, aqui, dos humanos, fique claro.





- Ahn... err... ouquêi. Voltem para os seus lugares, Moldo, Di e Sophum.








* vai ao toalete * sussurra






- Alô, professor Estíffens? Bem, não sei se essa história de filosofia pro ensino médio tá dando certo... medo.

They can; I try

- Concordo. Sou mais o pijaminha de algodão dos ébrios boêmios.
- Exato. A formalidade é um vestido longo de festa, feito pra inglêsver, cheio da pompa, mas mais pobre que chuchu.
- Boemia é como o jantar. É o arroz e feijão.
- Enquanto a cerimônia é o dîner, pouca comida e cara de bunda.
- É... E bem melhor uma bunda do que a cara dela.
- Seja na mesa ou fora dela.- Puts, tão bom concordar com alguém... Deixa-me ver a sua bunda.
- (...) Bom, discrição, ahn? (...) Taí, gosta?
- Porra, bem melhor que cara de francês.
- Ah, mas isso eu já sei há tempos... Agora eu quero saber se ela é boa.
- É. Na ‘ebrietude’, tudo se encara.
- É. Na ‘ebrietude’, tudo se encara.
- Quem repete a frase, repete o prato.
- Não, não sou de reatar namoro... A gente não funciona sob pressão.
- Claro, isso é coisa de chopp. Caralho, seis da matina.
- Chopp não é feito pra funcionar, no máximo pra deslizar.
- Goela abaixo?
- Também. Copo abaixo, eu dizia.
- De copo pra corpo é um erre e uma tônica.
- De mim pra você são dois erros e só.
- Erros quais?
- Eu e você.
- Arroz e feijão.
- Boemia?
- É... Melhor que chuchu.
- De fato.
- Aliás, ouvi que você tá dando que nem chuchu na serra...
- Ah, tô. De pijaminha de algodão.
- De vestido é mais sexy.
- Menos. De vestido pra camisola são dois beijos.
- De camisola pra chuchu na serra são mais dois.
- Então fechado, dou-te quatro beijos e começamos a plantação.
- Ah, não. To querendo caviar.
- Tomar no cu.

- Os próximos são vocês dois.
- Ih, é.- Vai lá.- Oi, moça. Dez pãezinhos, por favor.- Os mais torradinhos, se possível.

Sujismundo em: Visita à Comarca.


Estrada, ar-condicionado, chauffeur, jazz. Pedágio. ‘Veículo oficial, senhorita’. Não paga. Senhorita: Sorriso. ‘Bom dia!’. Olha a janela, de trás, sorri, língua o lábio. Uá ha, poor one! Estagiário, fodido, só cara, não caro. E o chauffeur mudo. E Diana Krall tentando. E três papagaias me apertam à porta. Ciscam e latem. Uma ostra, uma passa e a gostosinha da frente. Miro o retrovisor, celular, ela atende, ‘amor’. Então toma no cu, piranha perua. Pensei, não falei, to careta, buceta. Agora é a ostra no fone. ‘Shiiiiiiiiu!!’. Quase peidei. Cheiro e barulho em tailleurs seda pura. Secas putas. Maldito jejum. Saio do carro e as gralhas atrás. ‘O decote da Rafaela vinha até aqui, ó!’. Tinha então peito, ao menos, vacona. Shiu. Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Carecas, barrigas, suando e sorrindo. E o povo dormindo. A missão se cumprindo. Sangue me subindo. Quaaase cospindo. Cabou. Não. Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Cabou. Não. Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Outra puta parindo, o barbudo sorrindo, ‘oh que discurso lindo’. Cu, cu, cu. Fome do (no) caralho. Taurus. Chauffeur. Dele eu gosto. Papo-Durado, jogo do Vasco. Prefeitura. Atura. Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Anotado. Blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Ah, caralho. Prefeito. Corregedor. Patos. Advogados. Presidente. Ogros. Putas de ao joelho. E vem o almoço. Hotel mil estrelas. Prata à mesa. Cuisine francesa. Mas e a despesa? Uaaá ha, o negócio é mamar. Do povo mamar. E os putos mimar.

Aaah, eu me odeio!

Soneto Atrapalhado

O seu ziriguidum desenxabido
É a quizumba que zomba, é o samba atroz.
Sou balacobaco, mas, sim, tenho dó.
Teço juras de aTor, ao pé do ouvido.


(Mas se usar quiprocó já foi usado,
Quem será o Ricardo pra dar pitaco?
Não vou criar caso, nem pé no saco
Contra esse irmão barbudo e apaixonado)


Mulata, acorda e vai pro boteco.
Vai que eu te mostro, te sopro num eco.
Abraça-me e mexe esse teu coração!


E esquece o que eu digo, samba e rebola!
Terça é Carnaval, é o dia da Escola!
Nos fogos te beijo, dou-te um safanão!
Conflitos pessoais de toda sorte
Procurava a Bela Morte
Só queria a todos fascinar

Boatos geram o desassossego,
Sensação de desapego
Chapinhas soltas pelo bar.

Raras, soltas, outras, poucas,
Roucas, doidas, sem escolha
Sempre, em vão, à mesa, tentam figurar

Descartadas, têm motivo
Tudo as leva ao conflito
Dúvida se veste, então, para passear.


Porque eu não sei, porque eu não sei, porque eu não sei.
(e aqui entraria o solo de guitarra mais psicodélico desde aqueles anos)

Tônica


Sonny Green resolveu ir à boate. Banho não tomou, mas vestiu a melhor camisa velha, a mais bem rasgada das calças, o chinelinho de couro e foi.Antes do rock propriamente dito, decidiu uma parada estratégica no Trepo Torto.

- Que-que tu tem de forte? – ao homem do balcão
- O tríceps, ha ho he há ho.

- Uísque nacional com tequila, por favor.
- Ahn? Misturados?

SG até se arriscou a virar tudo de uma vez só, mas não segurou e deu uma ligeira vomitada.

- Ha ho he há ho.
- Tá rindo de quê, garçon idiota?
- Da cara que aquela loirona fez quando você cuspiu a bile!

- Posso sentar contigo, moça?
- Só se pagar o rum.
- Vê dois, rapá!
- Penny, e já deixo avisado que tu não vai me comer – estendendo a mão.
- SG pros íntimos, hehe... – forçando a barra pr’um beijinho na bochecha.

O tríceps demorava a trazer as doses e a falta de assunto sentou pra ler os classificados. SG decidiu agir, antes que fosse mais tarde.

- Tô indo pra festinha de rock, afim?
- Isso é piada, Sem Graça? Com esse chinelo tu não entra nem em forró.

A gostosa virou a dose e pediu mais uma. SG percebeu o desafio e propôs um jogo.

- Se eu virar o gim, o uísque e a tequila, tu vai comigo e com o chinelo pra festa.
- É rum. - ...
- E se não virar, me deixa cinquenta reais e a sua calça.
- Quê? Tu tá querendo que eu saia daqui pelado, safadinha? – ensaiando uma pauloricardo.
- Não, não é isso. A tua calça já está vomitada, o prognóstico diz que a situação vai piorar...
- Fuma?

Ele ofereceu o Marlboro.

- Não, idiota. Tô falando de outra...
- Ah, tá; não. Dos vícios, só três.
- Pior pra você, e eu não vou perguntar quais são... – riu enquanto acendia o baseado – Então o teu negócio é rock? Tá indo pra onde?

BJ falou o nome da boatezinha da moda. Ela morreu de rir e cuspiu a fumaça.

- Aquilo lá é uma merda. Rock de verdade não tá dentro de boate...
- Papo furado! Vai dizer que tu não dança?
- Não danço.
- Faz o que então?
- ... Garçon, traz uísque e tequila.
- Hmm... Topou a aposta?
- Só porque tô precisando de grana.

E Sonny Green virou os dois. E arrematou com o gim.

- É rum, brother. Já falei...
- Foda-se. O que importa é que eu virei e já tá ficando tarde. Anda, levanta!
- Levanta? Tá louco?
- Louco é louco, imbecil é outra coisa. Tu falou que ia comigo, agora vai!
- Hahaha, não mesmo.

Penny levantou-se, foi ao balcão e comentou, rindo, alguma coisa com o garçon. Ele respondeu:

- Ha ho he há ho! Tem certeza? - Lógico!

SG apareceu, entorpemputecido.

- Cês dois tão falando de mim, né? Anda, diz na cara!
- ‘diz na cara’? Não fode, cara... tô ocupada agora – e passou pro outro lado do balcão.
- Tu perguntou se ela tinha certeza. Certeza do que, mané?
- Ninteressa, rapá. Agora sai, que a gente tá ocupado...
- Ah... mas vocês dois não vão MESMO se pegar na minha frente!
- Não...
- Não.
- Vão fazer o que, então, porra?

A loira e o garçon nem precisaram se esforçar pra frase de efeito. De efeito mesmo foi o desmaio do SG, apagado e vomitado em cima da ovarada amarela do balcão de vidro. - Ha ho he há ho! - Ha ho he há ho!

Dois sem ésse

- (insiste) Persoña no computador... o dia de frente pra tela, coisa merda. Cúmulo da falta do que fazer.
- (traga) É viciante pra caralho. Ouvindo uma música FODA... Fumando... Escrevendo...
- (apela) Essa bosta ao invés de estudar! Isso é tempo perdido, é vagabundagem. (ironiza) Vai ler. Posso recomendar alguma coisa...
- (dispara) Cultura é o q’eu mais quero, oras. E eu faço porque eu gosto. Simples, natural.
- (ignora) BULLSHIT.
- (se anima) Você Assistiu Como Perder um Homem em dez Dias? (gargalhando) É hilário...
- (desdenha) Tô vendo a tua cultura! “Adora cinema...”.

(pensa)

- (e diz) Umberto Eco já falou disso, em Apocalípticos e Integrados senãomengano. Descoberta da vida de alguns na faculdade... (pau-sa-do) Listinha dos lidos na ponta da língua, né?

(respira)

- (e fala) Mudando de assunto, tem festa no puteiro, sábado que vem.
- (procrastina) Não sei se vou à festa desse homônimo de fãnqueiro.
- (abrevia) Ia ser uma boa... resolveríamos logo. Tchau-angústia. Fim de silêncio.
- (suspira) Pois é. O tempo passa e nada acontece.
- (sorri) Combinado, nos vemos lá. O que será que será?
- (desvia) Veremos. Sem prever, deixa fluir...
- (abraça) Ah, esqueci de dizer que detesto o teu new stile.
- (estremece) E eu me irrito com essas suas gírias babacas.

- É?
- Vem.

Beijam-se por dez minutos.
Abraçados.
No chão.

Bamba de Bamba

SAMBA DE BAMBA NA PORTARIA


Seu Eires era um baixinho invocado. Apesar dos ínfimos um e sessenta e três, olhava pra todos de cima pra baixo. Paradoxalmente, porque para tanto era preciso mirar as quinas superiores das paredes. Tinha ar de barão.

Barão decadente, não há dúvida. Quando jogava poker com os amigos, não se importava em perder, tanto fazia; bastava-lhe ao menos ser o primeiro a calcular os números, a reproduzir as apostas, estava muito mais para croupier. Sempre tivera potencial, nunca fora aproveitado – dizia todotempo.

No auge do vai-e-vem de aptidões com que sua vida se desenhava, decide, aos sessenta e seis, ser porteiro numa ruela do Catete. ‘Flamengo!’, bradavam os deselegantes moradores, embasados, orgulhosos, em um erro dos Correios.

O trabalho não era ruim: resumia-se a estar sentado todo o dia, ouvindo todos os jogos de seu Olaria e o resumo de notícias da Nacional em seu radinho de pilha. De quebra, uma ou outra fofoca, duas ou três picuinhas; a toda hora, o rebolado das mamães e a azia das velhinhas.

‘No meu tempo a molecada n’era mole desse jeito, não. Era pá-pum: olha pra rapariga, dá-lhe uma florzinha e mete-lhe a piroca, não tem papo furado!’, assegurava pro garoto de treze anos do 203. ‘Botafogo é o time do canguru. Só pula, mais nada’, segredava entre gargalhadas à dona Aurora, a velha viúva do 603 que jurava detestar ao menos olhar ‘pro rosto torpe do esqueleto da portaria'. Cochilar durante a labuta também não trazia conseqüências mais sérias, resultava no máximo numa bronca enraivada da síndica pianista.

Dona Truka era alemã, chegou à cidade no terceiro ano do XX, acoxambrada no ventre de uma dançarina de can-can flagrada com cocaína adulterada em Amsterdã. Tudo o que nunca fora na vida a maquiava em suas conversas secas com o velho Eires. Everuscka Truka, que nunca resistira 23 dias no mesmo emprego, fizera um curso de piano por correspondência e desde então vivia do lecionar, desprendendo rimas de Abba ou de Lennon pr’um aluno qualquer. Conquistara prestígio graças ao ar de modernidade, o lenço jogado no pescoço e o cinto roxo na altura do umbigo; a ralé realmente a olhava com deslumbre. O porteiro, em contrapartida, nunca lhe tratou com o menor respeito.

Certa noite, Eires tinha um compromisso de gala. Jorge, o menino do Bicho, avisou que haveria festa no morro, com direito a sambinha de Ari Barroso, bateria da verde-azul e lança-perfume a dois vinténs a noite toda. ‘Ótima chance pr’uma fungada’, pensou ao enlaçar a borboleta, dois microssegundos antes de Truka esmurrar a porta.


- Mein Got, eu pensar que o senhorra teve uma infarto! Te veste lôgo que eu tenho um tarêfa pro você – berrou em sustenido, enquanto puxava o homem pelos ombros para o corredor.
- Não, não e não! Hoje é meu dia e não vai ser a tua cara feia que vai estragar. Vade-retro, velha nazista!


A alemã imediatamente fechou os olhos e sentiu o sangue subir. Num passe de mágica, era vermelha, um morango gigante. Fechou também as mãos e num gesto inesperado socou com gosto o ventre magro do Eires engravatado.

(O porteiro tentou por muito tempo abrir os olhos, mas era em vão. Tudo rodava, o vestido de dona Truka se misturava com o azulejo do hall de entrada, seu crânio vibrava e movia-se sozinho, dançando com a visão embassada).

Mas o velho reagiu e só o que conseguiu fazer foi se lançar sobre o corpo ofensivamente gordo da outra. De olhos ainda fechados, beijou seu patuá e voou pro meio daquelas carnes molengas, num afã, primordialmente, sanguinário.

Ilumina-se aqui o primordialmente porque, como nos melhores momentos da vida – aqueles em que a vontade acumulada resolve criar pernas e sexo, e age por impulso – a Frau sessentona despiu-se de qualquer decência e decidiu se mexer. Com a mesma facilidade e sorriso espumante com que uma criança mutila as patas de um inseto, Truska imobilizou os frágeis bracinhos do garboso porteiro. Parecia uma lutadora de verdade, entortou-lhe as mãos como numa trança mal-feita e deitou-lhe no chão, estático por condição.

De súbito, abriu a bocarra enorme e aplicou-lhe o beijo mais molhado de sua vida. Sugava com gosto as entranhas do velho, enquanto alisava com vigor sua falta de carnes. Mesmo que quisesse, Eires não poderia reagir. O porteiro amassado apoiou-se, então, nesse álibi de meia arroba e deixou-se entregar aos prazeres da libertinagem, sobre o tapete vermelho-decadente do corredor de entrada.

Beijavam-se enlouquecidamente, nenhuma palavra, os olhos sempre fechados, a respiração acelerada. O elevador trouxe dona Aurora, que se limitou a gritar e sair correndo, mesmo depois de ter enganchado o vestido no salto do sapato da velha Truska e criado um rasgo que chegava-lhe até as coxas. Urrava, bestificada.

Sob a mesa do porteiro, o garoto do 203 ria-se mexendo todo o corpo, esperando ansioso pela hora em que o velho ‘meteria a piroca’ em alguma parte da dona síndica. A rua toda parou pra assistir o balacobaco inusitado: a turma do bar, da mercearia, o homem da banca de jornal, as crianças do parquinho; todos espremidos ao redor do vidro sujo da portaria.

Eires e Truska perceberam, é claro, mas não se importavam. Queriam um ao outro e limitavam-se a aproveitar.

Beijaram-se por mais três minutos e se desgrudaram. A alemã levantou-se rapidamente enquanto ainda tentava, em vão, arrumar o cabelo e fechar os quatro botões que lhe faltavam no vestido florido. Entrou ligeira no elevador, cantarolando Dancing Queen em ré bemol. Eires permaneceu onde estava por mais alguns segundos; depois ajeitou a camisa dentro do suspensório colorido, desentortou a gravata-borboleta e saiu andando rumo ao morro e à bateria da verde-azul. Até tentou, mas não achava forma de conter o leve sorriso safado que insistiu em se sentar no cantinho de sua boca.

Mais do que nunca olhava para todos de cima para baixo.

‘Mais um pouco eu perco essa bosta de virgindade, pode escrever', resmungou para si.
Assoviou, feliz, pela esquinas torta do Largo do Machado.

Perversão

O primeiro cigarro do dia, nu, ainda na cama, era sempre o melhor. Cheiro da noite anterior, gosto de fumaça, elo com a vadiagem.

Nada podia ser mais confortável do que a velha sensação de embriaguez permanente. Acordar com os olhos inchados, pesados, os sentidos arrastados, a boca seca, o gosto indecifrável de tabaco, álcool e saliva misturados, e passar o dia todo assim. O que finalmente se tornava um hábito – para uns, sinal de alerta, digno de cuidado – era, sem dúvida, garantia de bem viver, ‘ser todo, em tudo’.

E esses dias pós-gandaia não se arrastam pesados como supõem os caretas; ao contrário, fluem bem, são mais leves. Por um capricho qualquer que não se explica, tudo ganha uma tensão diferente: o corriqueiro passa a merecer um sorriso safado; nos que se vê sempre, enxerga-se novidade; na boca ao lado beija-se a da frente. Tudo sob a névoa suja, bem vinda, pejorativamente chamada por alguns de ressaca.

A noite não demorava a chegar e tudo começaria novamente. Mais suor, outros cheiros, mais cigarros, outros toques, mais álcool barato, outros becos e mais vontade. Mais vontade.


À perversão.

Oi, Ferreira.

E viva o Ferreira Goulart!
Viva, Ferreira Goulart.

.


Cantada

Você é mais bonita que uma bola prateadade papel de cigarroVocê é mais bonita que uma poça dágualímpidanum lugar escondidoVocê é mais bonita que uma zebraque um filhote de onçaque um Boeing 707 em pleno arVocê é mais bonita que um jardim floridoem frente ao mar em IpanemaVocê é mais bonita que uma refinaria da Petrobrásde noitemais bonita que Ursula Andressque o Palácio da Alvoradamais bonita que a alvoradaque o mar azul-safirada República Dominicana
Olha,você é tão bonita quanto o Rio de Janeiroem maioe quase tão bonitaquanto a Revolução Cubana

Ar roubo

vivia de caneta e sonho bom o dia inteiro.
nao sabia o que querer; só o que restava era ceder.
botava o disco na vitrola, tomava a aspirina.
fechava os olhos via, sob a cor da naftalina
os versos bobos, feios, que tantara escrever

arroubos ou ensejos, era em vão, estava à mercê.
os pratos se acumulam, acorda então, vai reagiro
telefone toca, boas novas hão de vir
retratos trazem tempos que gostava de sentir

o vento na piscina, sob o sol a reluzir.
separado, mas junto, o que lhe resta é aprender
'levanta essa testa, sai andando e vai vencer'
'vencer com meus princípios', respondia a soluçar

a angústia tem seus meios, suas formas de castrar
uma vez derrotada ela foge, como o pensar
e resta pelo menos a vitrola pra chorar.
a história recomeça e o sol nasce sobre o mar

no Rio as velhinhas vão à praia, caminhar
e ele, assim, deitado, não aprendia a liçãoe
e em versos derrotados implorava por perdão.

Sambinha

Quem dera a mais linda poesia
Quem dera poder conhecer a vida
A forma daquilo que não existe
e a receita, para não mais ficar triste.

Quem dera, olhar pro céu e voar.

E ver, tudo lá daquele andar.

Todo esse povo bem pequenininho

ao som do canto bom dos passarinhos.

Se um dia, eu puder plantar feijão,

e um tronco enorme sair lá do chão.

Não perco a chance e fico cá em cima

gozando o rebolado das meninas.

E durmo, numa nuvem de algodão.

O mesmo, das festas de São João.

Mas se você gritar, disser que não

Despenco, caio direto pro chão.

Frango Assado

Sinto-me só
sozinho, sentado,
sobrando nesse sofá,
suando o sábado,
sem saco ou salário,
não sei o que será

Eu só sei que você,
sem saber,
separou, fez sangrar
e sem sorrir, eu senti
o salgado sabor
de sair da sua sombra.

Se salvo eu for,
saberei separar
sua sombra do certo
e os seus seios do sexo
não será mais sonsa
porque eu saberei:

Por que você é assim?

Se já são seis horas
sete horas, não sei
eu nem sei se sou seu
ou se eu posso sair, por aí,
sigo solto, mas tenso, sonhando
e sabendo o que sinto
eu te peço pra vir

Mas se for assim
saberei superar
o fim sem graça dessa nossa história
simplória
não serei mais somente seu...

Por que você é assim?

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